História 2: Dante

Capitulo 1

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O eco do cacarejar dos galos, o qual assinalava o raiar do dia, alastrava-se ao longo da vila, onde caiam os primeiros raios de sol. Nas costas da povoação jazia a grandiosa lagoa azul, onde se reflectia a forma reluzente do astro.

Entretanto, Dante Winchester, o maior apreciador da beleza da natureza, fugia de um pai enraivecido.
 

O jovem culpava o seu cansaço, geralmente escalava até à varanda da rapariga em que estivesse interessado, consumava o acto e partia mal esta adormecesse, recusando-se a pernoitar para não ser surpreendido pelo pai da sua conquista. Foi exactamente isso que aconteceu, o meu maior pesadelo!

Infelizmente, no dia interior fora obrigado a trabalhar até à exaustão pelo progenitor, acabando por se deixar afogar no descanso, no quarto da rapariga. Fora surpreendido pelo pai da jovem, Alven, o talhante da aldeia. Este dera com ele, apenas de calções, a dormir ao lado da filha. Dante nem tivera tempo para se vestir, pulara da cama e, sucessivamente, da janela. 

Graças à sua sorte, aterrara numa banca de fruta, que um vendedor começara a montar para a praça da manhã. O impacto do seu peso destruíra
 a banca frágil, reduzindo-a a um aglomerado de farpas de madeira, o que enlouqueceu o seu proprietário. Infelizmente, Dante não usufruía de tempo para se desculpar ou lhe pagar pois Alven saiu pela porta, de madeira, empunhando um enorme facalhão.

A rapariga com quem passara a noite, Florença, surgiu na varanda, tapando-se com um robe vermelho. Eu ofereci-lhe aquilo nos anos.

- Pára pai! Que pensas que vais fazer? – Gritou, num choro desesperado.

- Dar-lhe o que ele merece! – Bradou o progenitor, cegado por um ódio imensurável. A rapariga virou o rosto oval para o rapaz.

- Foge Dante! – Este nem pensou duas vezes, correndo pela rua abaixo.

- Socorro. Alguém me ajude, tenho um bisonte com uma faca atrás de mim! – Gritou, até o ar lhe fugir dos pulmões e começar a tossir devido ao esforço.
Todas as janelas da vila estavam cerradas, nem se via viva alma, salvo um punhado de pessoas, as quais não lhe fizeram caso. 

O talhante abanava o facalhão, do tamanho de metade do seu braço, ditando e enumerando as maneiras como o desmembraria, começando pelo meio das suas pernas. Somente a ideia, empalideceu o rapaz. 

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Alven era gordo, detentor de uma barriga que mais parecia um barril, no entanto acompanhava a corrida de Dante, um jovem atlético na flor da idade. Só serve para constatar o seguinte: nunca subestimem o instinto protector de um pai.

O rapaz deu um salto impressionante, agarrando-se firmemente a um cabo de madeira pertencente ao parapeito de uma varanda, escalou-a até atingir o telhado.
 O homem já não me apanha. 

- Va raive, meia mi. – Falou Dante, esboçando um sorriso triunfante, olhando para baixo, fitando o homem barbudo. Significava “adeus, meu amigo” em Castianiano.

Caminhava cuidadosamente, saltitando entre os telhados de colmo e palha, pisando cuidadosamente as vigas de madeira, um passo em falso e daria uma queda árdua.
 

Subitamente, o homem apareceu na varanda onde Dante estivera anteriormente e subiu para o telhado.

- Vou-te apanhar, meu grande sacana e depois… - O sujeito possante avançou na sua Direcção.
 Por favor, que ele caia! Ainda me rio e escapo com vida. – O que é que pensas que andaste a fazer com Florença? – Dante saltou para outra varanda, empoleirou-se nesta para aterrar confortavelmente na terra húmida das ruas.

- Bem, precisa mesmo que eu explique? – Falou alto, de tom ignorante. O gesto enfureceu, ainda mais, o seu perseguidor que tentou alcançá-lo sem notar onde metia os pés. Foi engolido pelo telhado, tombando para o interior da casa, criando uma enorme brecha no topo do edifício. 


Dante desmanchou-se numa enorme gargalhada, confiante que poderia escapar finalmente.
 

Página 3:

Dante descia a rua serpenteada, fitando o seu destino na distancia, a enorme mansão centenária da sua família, edificada no final do trilho de terra, antes de este dar lugar a um tapete interminável de areia.
Lufadas de vento esbarravam contra o seu peito, sentindo o frio da alvorada da primavera a picar-lhe. Relembrou a noite anterior, deliberando se teria valido aquele esforço todo, acabou por decidir que sim mas assegurando-se que, dali para a frente, seria mais cuidadoso.  
Dante prosseguia pelo caminho de terra batida, uma linha recta circundada de edifícios, maioritariamente de dois andares, no seu lado direito. Viu uns homens de aspecto jovial a saírem de um estabelecimento velho, manchado por falhas na madeira que se assemelhavam a veias, cujo letreiro oscilava ao ritmo das brisas, preso por uma só corrente ferrugenta que chiava constantemente, o ruido ligeiro enervava Dante. O estabelecimento em questão era chamado “Á Beira-Mar”, onde os marinheiros se costumavam alojar. Lagoa estava cheia deles pois no porto jamais cessava actividade e estava sempre apinhado deles. Além dos navios, e alguns mercadores ocasionais, ninguém visitava aquele sítio.
 O jovem reconhecia os homens, ocasionalmente o pai forçava-o ajudar a carregar as mercadorias e travava as suas amizades. Estes últimos vestiram sorrisos curiosos ao depararem com a sua figura de peito descoberto.
- Então Dante. – Falou o mais encorpado, no típico traje cinzento e dourado, chamava-se Richard e era uma dezena de anos mais velho que si. – Porque estás nessa linda figura? – Um jovem de aspecto esguio, olhos claros e com o maxilar saído revestido por uma barba fina não conteve um riso enervante.

- Aposto que tem a ver com a Florença, estás a tentar a tua sorte há semanas, nunca te vi tão determinado. Deixas-te lá a tua camisola como recordação? – O grupo rebentou numa longa gargalhada, um gesto que Dante não apreciou....
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...
- És muito engraçado Marcus! Folgo em ver que foste abençoado com um bom humor, terá sido a dádiva de deus para te compensar teres nascido com um cérebro defeituoso? - O alvo da piada foi o novo troçado. Dante prosseguiu: - Antes a tivesse deixado como recordação. Voces não ouviram os meus gritos? – Todos ergueram as sobrancelhas. 
- Gritos?
- Sim, gritos. – Elevou a voz. – O pai dela perseguiu-me durante uns bons cinco minutos, com o facalhão com que corta a carne dele. Tinha-me dado jeito alguma ajuda mas as únicas pessoas na rua ignoraram o facto do futuro senhor destas terras quase ter sido cortado aos bocados. Eu sei o que fiz mas aquele homem é louco! - Suspirou. 

Estalaram várias gargalhas a seu redor, os jovens adultos caíram no chão húmido, rindo que nem dementes. Dante odiava ser objecto de chacota, retribuía sempre na mesma moeda. Nesta ocasião, foi incapaz de os culpar, o seu riso juntou-se às gargalhadas. A situação era demasiado engraçada para se deixar acorrentar ao orgulho, pelo Oeste se aquilo tivesse sucedido com outra pessoa teria rido até à cova. O rosto enfurecido de Alven infestou os seus pensamentos, perdeu a vontade de continuar a troçar consigo próprio. - Já troçaram o suficiente?
- Não. - Respondeu o grupo em coro, rebolavam no solo que nem porcos numa poça de lama. 

- Bom para voçes. - Resmungou, virando as costas aos marinheiros. 
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Já não restava o menor traço da noite, os pássaros pareciam balas a cortar o céu, emoldurado por algumas nuvens pálidas. Mirou à esquerda, contemplando a grande lagoa. Desviou-se do trilho de terra, pisando a erva, lavada pela humidade da geada, caminhando até o momento em que a areia nascia. 
Descalçou-se, atacado por um leve cheiro desagradável, necessitava de lavar os pés. O vento levou o odor para longe, sobrando apenas o cheiro agradável do seu lar, uma mistela de perfume da maresia com o das árvores e plantas.
Aflorou-se um sorriso nos seus lábios enquanto pedia mentalmente a deus para nada se alterar na sua vida, desesperava só de pensar nas mudanças que espreitavam no horizonte. Completara recentemente os dezoito anos, o pai queria prepará-lo para que o sucedesse. Dante sempre usufruia do privilégio de possuir liberdade total, nem mesmo quando fazia disparates era castigo. Isso estava prestes a mudar. O pai queria mandá-lo para o Estado de Cliffe, para a cidade de Hidden, onde teria um ensino especial, levado a cabo pelos melhores professores do estado.





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