História: Um Conto Do Oeste



Capitulo 1.

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Bonnie tentava sorrir para esquecer, nem que fosse apenas durante um segundo fugaz, a morte do avô.

Fitou o copo, recheado por um líquido castanho claro, diante de si, colocado no balcão sobre um pano bolorento. O cheiro a álcool retorcia-lhe as entranhas, porém resolveu arriscar ficar um bocado nauseada, esperava que o efeito do licor aligeirasse a emoção de perda que a despedaçava. A bebida escorreu-lhe pela garganta, fervendo o seu interior e presenteando-lhe a boca com um travo amargo . Esboçou uma expressão de nojo, controlando-se para não vomitar, apesar de ter ficado com o estômago às voltas. Odiava beber, evitava-o sempre mas não naquela noite sombria.

Sentava-se num banco, cujo pó não fora bem limpo, provavelmente por preguiça do dono do estabelecimento conhecido como o “Coiote nocturno”. Teve uma reacção alérgica, espirrando mais alto do que gostaria, corou mas, para seu alívio, o ruído foi abafado pelos gritos de um enorme individuo, numa das mesas redondas:

- Batoteiro! – Rugiu este, olhando para o homem que defrontava num jogo de cartas. Eram circundados por várias pessoas, as quais observavam o jogo enquanto bebiam e tagarelavam entre si. No centro da mesa jaziam várias moedas, o suficiente para o vencedor se ficar satisfeito, durante algum tempo.

O outro sujeito sorria descaradamente, segurando quatro cartas na mão direita, mostrando, para o bar inteiro ver, os desenhos de cada uma. Eram dois pares perfeitos de Lamances. O homem enorme rugiu, provavelmente enervado por ter perdido. O vencedor estava numa taberna, mesmo assim, usava sobre a cabeleira um chapéu redondo, onde fora enrolada uma fita carmesim que segurava uma longa pena prateada.

– Estás a aldrabar-me, seu patife! – Bradou de novo o perdedor, parecendo volátil.

- É preciso ser um para reconhecer outro. Sim não nego que talvez o seja, porém não nesta bela noite. 
- Sorriu para o dinheiro diante dos seus olhos. - Ainda mais bela agora! – Tinha uma expressão tão jovial, apesar de enegrecida devido à escuridão da divisão, que não devia ser mais velho que Bonnie
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O empregado do bar aproximou-se, murmurando no seu ouvido.

- Devia sair, menina Colt. Isto não é lugar para uma senhora. – Bonnie fitou-o, era um homem franzino, de sobrancelhas quase coladas, e cabelo curto. Trajava uma farda amarrotada e castanha, à qual faltava um dos botões gastos. – Isto está prestes a tornar-se feio. – A jovem acenou, sabia o quão perigosa uma rixa de bar se podia tornar. Ergueu-se, o empregado agarrou, suavemente, no seu braço. – Lamento pelo seu avô, menina. – A menção ao falecido abalou-a, sem o demonstrar acenou e caminhou para as portas largas, arqueadas no topo, onde pendia a escultura, esculpida a madeira, do focinho de um urso. Avançou por entre as mesas ocupadas, esbarrando contra uma ou duas pessoas.

Atrás de si, uma força bruta colidiu contra madeira, seguiu-se o sonido do chocalhar de moedas. Bonnie estava a um passo da porta e só queria sair, arrependida por se enfiar num local como aquele mas, levada pela curiosidade, olhou para trás. O homem possante e barbudo, que perdera o jogo de cartas e usava um casaco de pele, tinha o punho cerrado no centro da mesa, algumas das moedas tinham caído para o chão. Este retirou uma pistola, uma Beretta pequena e capaz, apontando-a à testa do jovem com o chapéu. Rebentou uma onda de exclamações surpresas, juntamente com alguns olhares horrorizados dos presentes. Bonnie levou as mãos à boca, a possibilidade de assistir a um assassínio deixava-a em pânico.

- O meu nome é Jack Cactum, sou líder do guangue Cactus - Revelou aquele que segurava a pistola, subitamente circundado por um punhado de homens de aspecto perigoso, todos com uma coisa em comum, usavam casacos de pele, onde fora bordado o desenho de um cacto. – Sai pela aquela porta, deixa o dinheiro aqui e poupo a tua ignorância. – Parecia enervado, arrastando a voz numa tentativa fútil de se controlar.

O jovem colocou os braços detrás da cabeça, aligeirando um risinho nos lábios, aparentemente, delicados. Segurava um copo, o qual albergava um licor castanho-escuro no seu interior, bebericando. Empurrou a cadeia para trás, erguendo-se, era mais alto do que parecia.
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- Sim, certo, meu bom senhor. Nem todos são graciosos na derrota, compreendo a frustração que possa ser para as mentes rudimentares. Incapazes de compreender que fui acolhido pela senhora Sorte. – Jack Cactum era incapaz de conter a ira, a arma tremia-lhe na mão e parecia prestes a premir o gatilho.

- Mais uma gracinha… - Rosnou.

O adulto, Bonnie conseguia vê-lo bem agora, devia estar a meio dos seus vinte, subiu, com a ajuda do banco de quatro pernas, para o topo da mesa, segurando uma moeda. 

- Não é nenhuma gracinha. – Murmurou. - Quem acredita em magia? – Inquiriu alto, analisando os seus arredores. Houve um silêncio passageiro, varrido por uma vaga de gargalhadas. Bonnie juntou-se à troça, uma pessoa sã jamais acreditaria em semelhante barbaridade.

- O rapaz está bêbado! – Comentou alguém.

- É um bêbado batoteiro. – Acrescentou Jack, com desdém.

- Minha boa gente, não sabeis o meu nome, nem o irei revelar, para já. – Iniciou o jovem, pavoneando-se sobre a mesa. – Sabei apenas isto, os tempos estão a mudar, a magia está a regressar. – Esfregou a moeda prateada, pela primeira vez na noite ficou com uma expressão séria. Por alguma razão, Bonnie Colt achou o gesto fascinante. – Basta o lançamento de uma moeda… - Atirou a moeda ao ar. – … Um pestanejar. – O objecto baloiçava sobre a sua cabeça. - …E desapareço. – A moeda estalou, fragmentando-se em milhares de pedaços. Um pó verde varreu a divisão, conjurado a partir do nada, que cegou os espectadores, invocando ataques de tosse. Bonnie, sentiu os olhos a arder e tossiu até perder o fôlego. 


A leve cortina de fumo retraiu-se e todos os risos sobre a existência de magia se tinham evaporado, juntamente com o jovem e o dinheiro.

***


Bonnie subia, a custo, pela terra dura, tinha o estômago dolorido devido à pressão que o corpete exercia, mal se via capaz de respirar com ele posto. Infelizmente, apesar de a magoar precisava de se vestir de acordo com a sua posição social, era uma Colt, pertencia à família que era dona de metade das terras de Cliffe.

Desapreciava a noite escura como o carvão e tão árida quanto o deserto, os seus lábios ressequíam, ganhava o desejo de beber a água mais fresca para os humedecer. Estudava as cabanas, daquela parte da cidade, que demonstravam a sua idade, algumas mal possuíam o telhado de madeira, ora esburacado ora totalmente desaparecido. A sorte dos seus ocupantes é que viviam no estado de Cliffe, se chovesse três vezes durante um ano era muito, merecia a fama de ser o estado da seca. Os frutos e vegetais húmidos provinham dos estados mais acima, assim como a água potável. Em Cliffe escorria somente um rio mas era demasiado complicado aceder a ele, encontrava-se no interior do Riv Canyon, onde ninguém se atrevia a fazer estradas, infestado por Lamances e outros carnívoros.

Cliffe era célebre pelas suas armas, produzidas pelas famílias Colt e Bereta, entre as quais existia uma rivalidade mortal que durava há séculos, desde que o seu povo pusera os pés naquele continente. Bonnie nem queria pensar nos problemas vizinhos, os Bereta iriam tentar tomar os territórios dos Colt mal soubessem da morte do seu avô. O povo também não veria com muito agrado a ideia de uma mulher no poder, que era o destino de Bonnie, a única herdeira de Samuel Colt. Bem, não era a única mas o seu irmão fugira de casa há um ano e ninguém sabia do seu paradeiro desde esse dia, o fardo de governar teria caído sobre ele se ali estivesse, porém Bonnie conhecia-o bem, ele jamais desejaria semelhante futuro. Por vezes, inquiria-se se essa não teria sido a razão do seu desaparecimento.

O solo tremeu, muito ligeiramente, escutou o rezingar do comboio. Não o conseguia ver dali, a estação estava escondida atrás de um aglomerado de cabanas quadradas, coladas uma à outra, apenas com vielas estreitas entre si, numa fila recta.

Bonnie, avistou um punhado de sujeitos fardados na sua direcção, torcendo o nariz. A mãe e o pai vão matar-me! Entretanto, outro grupo, este composto por homens de aspecto rude e pouco assíduos, também se aproximaram de si.

- Boa noite, menina. – Começou um. Bonnie lançou-lhe um olhar pouco agradado.

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- Boa noite, menina. – Começou um. Bonnie lançou-lhe um olhar pouco agradado.
- Boa noite, agora se me dá licença… - Respondeu, empunhando a maior das delicadezas, sem demonstrar fragilidade. “ Os predadores cheiram a fraqueza pensou, tentado não tremer, abanando a mão no ar para que os guardas se apressassem.
- Eu não dou licença. – Retorquiu um deles, o mais peludo e de sorriso esburacado.
- Vamos divertir-nos. – Acrescentou outro, que a segurou pelo braço. Horrorizada tentou livrar-se do aperto mas ele era demasiado forte. Tentou manter a calma.
- Largue-me imediatamente. – Quase gritava. – O meu nome é Bonnie Colt. – As expressões dos bandidos perderam a cor. 


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